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segunda-feira, 11 de junho de 2012

E a mecânica quântica nos trás um motor estelar

SÉRIE: CIÊNCIA

por Fargon Jinn

Exploradores, vamos falar de viagens interestelares? Ótimo!

A primeira etapa que teríamos que discutir são os meios ou os processos para tal. Como seriam?

Quero trabalhar com vocês alguns conceitos básicos, antes, para colocá-los no clima do que vou dizer em seguida, que é o real tema deste artigo.

Elaborando as motivações

Imaginem que tenhamos descoberto um planeta, em outro sistema estelar, em condições de existência de água em estado líquido, digamos, a oitenta anos-luz do Sol. Ou seja, já vemos aí a possibilidade de desenvolvermos um entreposto espacial. Muito dificilmente esse planeta nos daria possibilidades de viver nele. Muito quente, ou muito frio, atmosfera com concentrações gasosas indevidas, condições gerais hostis, risco de contaminação por doenças desconhecidas, etc.

Então por que o visitaríamos? Primeiro em busca de conhecimento. Desenvolvimento geológico, estudo da fauna e flora, mineralogia, gravitação, energia, química, fósseis, busca por inteligência extraterrestre, enfim, uma infinidade de questões de mérito científico. Além, é claro, de outras questões de méritos estratégicos. Por exemplo, para viajarmos entre as estrelas, é obrigatório um item de extrema necessidade: água.

É claro, poderemos levar tudo o que for necessário, inclusive água, mas esse é um elemento que sempre será necessário, inclusive para o nosso planeta. Por mais que se recicle, as perdas estarão presentes em qualquer situação. Além disso, se pretendemos criar uma base permanente neste novo sistema planetário, teremos que pensar em procriação. Para aumentar o número de indivíduos num sistema equilibrado teremos que, principalmente, aumentar a quantidade de água deste sistema, além de muitas outras coisas, obviamente. Um planeta com condições próximas ao nosso, ofereceria os insumos necessários.

Como se viaja entre os vazios estelares?

Desta forma já estabelecemos, até agora, as nossas motivações, “o porquê” de se viajar. Vamos então tratar do “como”.

Precisamos, com certeza, de um veículo espacial que nos permita viajar por séculos, e que mantenha as condições de existência de uma comunidade ativa. Nada de animação suspensa (criogenia, congelamento). Isso é mais fantasia do que uma possibilidade real. Essa comunidade manteria os sistemas do veículo, estudaria o espaço interestelar, trocaria experiências com a Terra e evoluiria em conjunto conosco.

Num sistema “congelado” não haveria desenvolvimento. Ao término desta viagem, teríamos uma pequena sociedade arcaica, destoante do resto da humanidade. Eles pararam no tempo por séculos. Nós evoluímos vertiginosamente. Seria como pedir a Napoleão que se adaptasse ao século XXI.

Propulsão e energia

Bom, continuando em relação ao “como”. O que propulsionaria nossa espaçonave durante esse período, quais combustíveis seriam necessários? Agora sim, chegamos ao verdadeiro motivo deste artigo.

Eu sempre acreditei, amigos exploradores, que, no futuro, os sistemas de propulsão teriam que depender de geração de energia nuclear (por decaimento ou fusão), e não poderíamos escapar disso e todas as suas implicações. Mas, recentemente, e isso é a grande novidade, a ciência deu um novo passo. Aisha Mustafa, uma adolescente egípcia de dezenove anos, estudante de física aplicada na cidade do Cairo, registrou a patente de uma nova e promissora solução para um sistema de propulsão espacial.

Mecânica quântica na parada

Aisha Mustafa, 19 anos, estudante de física aplicada
De fato, ela desenvolveu uma ideia de um “motor quântico” para vir a ser utilizado por naves espaciais de espaço profundo. O seu conceito é um equipamento capaz de gerar movimento a partir de coisa nenhuma. Parece louco, mas não é.

A partir da teoria desenvolvida pelos físicos holandeses Hendrik Casimir e Dirk Polder, mais conhecida como Efeito Casimir, ou Força Casimir-Polder, ela fez um desenvolvimento de um método que aproveitaria o chamado Differential Sail (velejar por diferencial, numa tradução livre), que é uma das várias propostas desenvolvidas pelo físico estadunidense Marc G. Millis, para a NASA.

Surfando no espaço?!

Infográfico exemplificando a Força Casimir-Polder
O Efeito Casimir é um fenômeno que funciona perfeitamente no vácuo. Duas placas colocadas paralelamente à distância de alguns micra, uma da outra, tendem a aproximarem-se. Para simplificar, entre as placas existe uma ondulação energética menor do que nas laterais externas. Esta diferença de ondulação recebe força de fora para o interior das placas, aproximando-as.

O Differencial Sail seria um processo em que produziria-se uma densidade energética menor num dos lados do sistema gerando um movimento do lado mais denso para o menos denso. Exatamente como se fosse uma vela, onde a pressão dos ventos empurra a embarcação.

Ou estaremos velejando...?

O NanoSail-D da NASA é um veleiro solar bem sucedido
Velejar no espaço não é uma ideia nova. As estrelas produzem o chamado vento solar. Este é o resultado da radiação e emissão de matéria das estrelas para o espaço.

Já no espaço interestelar isso não seria tão fácil, longe das estrelas a nave não teria tanta força para ser impulsionada. Nestas regiões entra-se no conceito quântico de Energia de Ponto Zero, ou seja, a menor energia possível em qualquer circunstância é meio quantum. Essa energia é a que gera o Efeito Casimir.

O conceito de Aisha Mustafa aproveita esta pequena energia e a transforma em movimento. Ou seja, não precisaremos de tanques de combustíveis para reatores químicos ou propulsores iônicos que demandam uso de energia elétrica.

Não é uma Brastemp

Alguns chegam a ir longe em suas suposições
Eu sei, exploradores, eu sei: Não é uma Enterprise...! Né? Mas ainda assim é o que a nossa realidade científica pode prover. Isso com certeza é o início de propostas para sistemas muito mais eficientes e velozes num futuro bem próximo.

Mais imediatamente, poderemos ter sondas de espaço profundo usufruindo de um sistema de propulsão quântica que poderão funcionar por séculos, orientadas para os sistemas mais próximos como Alfa-Centauri e outros nas vizinhanças.

Isso, no mínimo, é uma grande barreira sendo superada pela física moderna e por uma cientista tão jovem, e ainda em formação. Imaginem o que poderemos ter dentro de alguns anos... Quem viver verá!

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Construíndo a Enterprise

SÉRIE: CRÔNICAS NERDS

por Fargon Jinn

Olá amigos exploradores. Sendo esta semana um período do ano muito especial, estou trazendo este presente ou esta pérola, dependendo dos olhos de quem vê. O que temos nas linhas a seguir é algo com o qual esbarrei nas minhas atividades exploratórias da internet. Algo que além de me encher de espanto e incredulidade, também me trouxe um pouco daquele entusiasmo infantil e inconsequente. Me fez pensar e sentir como NERD, como alguém que sonha desmedida e irresponsavelmente. E, de repente, resolve que se ninguém começar a fazer em algum ponto, ninguém nunca o fará. Então, por que não ser eu o primeiro lunático a agir? E começo a dar asas à imaginação. Sigo aquilo que alguém disse: “Toda obra prima é um por cento de inspiração e noventa e nove de transpiração!”.

Comparação entre construções e navios com a Enterprise
Então, eis que um misterioso nerd, Dan (apenas Dan), com uma idade que deve estar na casa dos cinquenta, engenheiro elétrico e de sistema, que trabalha, há trinta anos, numa poderosa empresa que explora tecnologia de ponta, senta-se na frente de seu computador e do nada cria um site que vem recebendo dezenas de milhares de visitas diariamente. buildtheenterprise.org, é sem dúvida a coisa mais impressionante que já encontrei nos últimos anos.

Um sonho, um delírio e muito trabalho

Enterprise de Star Trek (2009)
Ele acredita que poderemos construir uma Enterprise em vinte anos. Mas não uma nave qualquer. A Enterprise. Aquela, capitaneada por ninguém menos do que James Tiberius Kirk. A NCC 1701-x, Gen1. Estamos falando aqui de uma realidade? Ou é um sonho? Seria um delírio? Nenhum, nem outro. É uma proposta para o mundo. Um desafio ao estilo J. F. Kennedy.

Orçamento para vinte anos
Trata-se aqui de uma réplica estrutural na escala 1:1 da nave estelar que deveria ser construída em 2245, cujo custo é orçado em um trilhão de dólares americanos. Equivalente a cinquenta bilhões/ano. Ou seja, como se lançássemos uma centena de missões do ônibus espacial por ano, pelos próximos vinte anos.

A proposta toda está pronta. Ele gerou tudo, desde os custos de produção; organogramas; cronogramas; plantas; soluções de engenharia; métodos de construção; desenvolvimento de tecnologias; usos; missões; evolução do projeto; e, todo o programa espacial para os próximos cem anos, pelo menos. É trabalho de gente grande com imaginação de gente miúda, prolixo, proativo, fértil e desmedido.

A culpa é de Newton

A coisa toda é extremamente fantasiosa. Algumas das soluções são baseadas em conhecimentos teóricos, mas quando se faz uma projeção realista sua aplicação não ‘bate’. Por exemplo, em Star Trek, existe um gerador de gravidade. A nave de Dan tem a roda ou carrossel gravitacional, concebida para suprir a tecnologia de gravidade artificial. Este seria um cilindro giratório do tamanho da seção disco (parte dianteira da Enterprise) que produziria o equivalente a uma gravidade terrestre.


A falha desta proposta está nas três Leis de Newton. Ao iniciar-se um sistema rotatório no interior de uma espaçonave, a força aplicada ao cilindro será repartida com o restante do sistema. O cilindro gira para um lado e o restante da nave para o outro. Teríamos que compensar com jatos de manobra.

A cada vez que a Enterprise parte para uma viagem ou chega ao seu destino, o cilindro deve parar, para que se fixe todo o sistema estrutural nas alterações inerciais e, já no novo estado inercial, retomar sua rotação. Reiniciar o giro durante deslocamento, mesmo já atingida sua velocidade de cruzeiro é outra dificuldade, pois há uma séria implicação na estabilidade do sistema.

Troco três reatores nucleares por um de anti-matéria

Propulsor iônico com tanque no Electric Propulsion Laboratory em Ohio
Enquanto que no século XXIII a nossa nave teria propulsão de dobra espacial e energia de reatores matéria-antimatéria, esta seria com motores iônicos e reatores nucleares. A de Kirk viajaria entre as estrelas, a de Dan, entre os planetas e satélites do Sistema Solar.

São inúmeras diferenças, e não poderia ser de outra forma. Mas o que mais chama à atenção é a seriedade com que são levadas as propostas. São páginas e páginas esclarecendo detalhes de construção, produção, utilização e correlação a outras soluções de usufruto do espaço. Desde posto de reabastecimento para a “frota” terrestre, reparo e lançamento de satélites, limpeza de detritos orbitais, passando por laboratório espacial e centro turístico, até ferramenta de instalação de bases lunares, planetárias e cidades nas nuvens (estilo Star Wars).

Lasers no papel de Phasers
Não estou brincando. Ele planeja instalar um laser de cem megaWatts na seção frontal do disco com o fim de desintegrar o lixo espacial, fazendo as honras dos canhões phasers. O que nós poderíamos usar para substituir os torpedos fotônicos?

É prá falar a sério...?!

E os internautas estão levando à sério. O site já sofreu crash mais de uma vez por acesso excessivo.

Olha! É uma delícia. Explorei o site como se estivesse num dos muitos jogos de Star Trek. É uma experiência de realidade virtual. Você se perde no entusiasmo da imaginação. Me senti criança, novamente, assistindo a Kirk e sua tripulação, nas noites de sexta-feira, numa TV preto e branco.

Quem sabe?! Vai que realmente a massa-crítica é atingida e, num efeito turba, o projeto começa a deslanchar. Talvez não seja em vinte anos, talvez seja em sessenta, talvez mais. O importante é que tem um maluco lá fora. E ele não sabe se conter. Com a cabeça nas nuvens e os pés ainda mais altos, ele desistiu de encontrar motivos-para-não-fazer. Resolveu que os-motivos-para-fazer são melhores, e abriu a torneirinha. Essa, nem o Visconde de Sabugosa fecha. Aahh! Essa é para nerds! E... o que nerds querem... Huummm...!!!

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Mass Effect 3 - Conclusão

SÉRIE: GAMES


por Fabok

Conclusão da trilogia eleva Mass Effect à categoria das grandes space operas.

Obs: alguns spoilers no artigo!!!!

Após os eventos do DLC para Mass effect 2, The Arrival, Shepard é forçado a entregar a Normandy e ver sua tripulação seguir seu próprio caminho. Não é por menos, para evitar um ataque surpresa dos reapers ele sobrecarrega o mass relay de um sistema estelar destruindo tudo, inclusive uma colônia Batarian. Shepard de herói se transforma num embaraço para a Aliança. Pior ninguém leva a sério os avisos do comandante de que a invasão reaper está chegando.

É aqui que começa ME3. Shepard é chamado as pressas quando os reapers começam um avassalador ataque a Terra. Mas o QG da Aliança é destruído. Em meio às ruínas da megalópolis que resultou da união das cidades de Seattle e Vancouver e sob fogo reaper, Shepard precisa chegar a Normandy e fugir. Não há outra alternativa. A Terra não é o único planeta em chamas. Toda a galáxia está a beira da aniquilação. Ele é informado pelo capitão David Anderson (Keith David) e pelo almirante Hackett (Lance Henriksen) que uma base científica em Marte, estudando ruínas dos proteans, encontrou algo que pode ser usado na guerra, mas o contato com a base foi perdido e Shepard é enviado para investigar.

The Crucible
Quanto ao Comandante, além dos reapers, terá que enfrentar Cerberus, a organização paramilitar xenofóbica da Terra que tem seus próprios planos para os reapers. Ela é responsável pelo ataque a base científica, mas Shepard descobre que no planeta vermelho foram encontrados esquemas do que pode ser a única esperança de vitória para a galáxia, o misterioso dispositivo "The Crucible".

A missão de Shepard é quase impossível. Forjar uma aliança entre todas as espécies da galáxia. Algumas delas inimigas por séculos. Para isso ele precisará da ajuda de novos e velhos aliados. E ainda descobrir as reais intenções do The Illusive Man (Martin Sheen), líder de Cerberus.

Mordin e a pesquisa da Genophage
Mass Effect 3 não deixa nada a dever as melhores sagas espaciais. Ação, aventura, reflexão (olha aí Helder Maia) e por que não, sacrifício. A tripulação da Normandy levará o lema "as necessidades de muitos, superam as de poucos" as últimas consequências. Vale destacar o excelente trabalho dos atores, que fazem que os personagens de ME sejam mais bem desenvolvidos que os de muitos filmes e séries por aí. Destaque para duas missões em especial: o embate em Tuchanka para livrar os krogan da praga biolágica genophage e a liberação Rannoch, planeta natal dos quarians e ocupado pelos cibernéticos geth.

O roteiro é tão bom que ao me aproximar da última missão, me dei conta que estava realmente receoso pelos destinos de Liara, Tali, Joker, Edi, James, Legion, Wrex, Garrus, Ashley e toda a tripulação da Normandy. Explorador, lembra daquela antecipação para o final de Babylon 5 ou Battlestar Galactica? Foi a mesma coisa que senti.

E o final? Achei espetacular. Realmente não entendi toda a comoção na Internet. São três finais (que não contarei para não estragar a surpresa) e o que escolhi era totalmente coerente com a evolução que dei ao personagem de Shepard. Para os curiosos, escolhi o final verde. Para mim os finais azul ou vermelho não condiziam com meu personagem, mas de qualquer modo são muito interessantes, inclusive o final vermelho tem um bônus a mais...

Talvez meu lado scifi tenha falado mais alto que meu lado gamer, mas o final verde e sua temática de ficção científica hard me conquistou. Se há um lado negativo no final, alias, nos finais, é que você fica realmente sem saber o que aconteceu com a maioria dos membros da sua tripulação. No meu caso, meu esquadrão final era composto por Liara e James e após o devastador ataque de Harbinger fiquei sem saber o destino deles. Acredito que eles morreram, mas certeza... não tenho. Outro problema é o que aconteceu com os milhões de habitantes da Citadel. Jogue e tire suas conclusões. De qualquer modo, a chiadeira foi tamanha que a Bioware, está preparando uma série de cutscenes extras para dar um encerramento "melhor" para a saga que serão integradas ao jogo de maneira gratuita.

E o que o futuro reserva a Mass Effect? No momento uma série animada está sendo produzida e ainda temos boatos da versão cinematográfica de tempos em tempos. O fato é que a Bioware já prometeu que teremos mais jogos baseados no riquíssimo universo do jogo. Contudo, particularmente acredito que não teremos mais aventuras com Shepard e a tripulação da Normandy.

Aos exploradores que ainda não jogaram a saga completa, corram... vocês não sabem o que estão perdendo...são cerca de cem horas de ficção científica da melhor qualidade. Mass Effect conquistou seu lugar ao lado das icônicas space operas Star Trek, Star Wars, Babylon 5 e Stargate e merece ser conferida!!

Ah! Uma dica final: ao final do jogo, depois dos créditos finais, há uma bela cutscene com a participação do astronauta da Apollo XI Buzz Aldrin. Emocionante e imperdível!

Até a próxima!

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Star Wars

por Fagon Jinn
8º da série FC vs Ciência

C-57D - O Planeta Proibido (1956)
Até 1968 não existia uma definição propriamente. Se víamos Flash Gordon em seu foguete no espaço, ele tinha algum tipo de efeito sonoro. A C-57D de Forbidden Planet (1956) nos dava o som de meia dúzia de violinos, flautas e um sintetizador destemperado. Era quase uma música, tinha mesmo um toque melodioso. Mas o fato é que isso eram apenas sons incidentais para preencher o momento e dar um toque de sofisticação futurística.

Stanley Kubrick mudou isso tudo. Um foguete, um transporte lunar, ou uma estação espacial não produziam sons de forma alguma. A cena era preenchida por sinfonias e valsas românticas. Ele optou por adotar uma abordagem científica e não fantasiosa.

Tubarão (1975) - blockbuster
Mas isso teve um preço. O gênero ficção científica perdeu força. Foi taxado de tedioso e elitista. Os custos de produção de 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968) também ajudaram a enterrar a FC sob uma tonelada de investidores zelosos de seus patrimônios e mais propensos a investir em comédias e os recém inventados blockbusters.

Keir Dullea como Dave Bowman
Kubrick tinha criado uma obra de arte a ser descoberta. O filme quase levou a MGM à banca rota. E por pouco não foi cancelado durante a pós-produção. Aos poucos 2001 tornou-se um cult. Isso significa que o grande público não conseguiu digerir os quarenta e tantos minutos ouvindo o som da respiração de Keir Dullea (astronauta Dave Bowman).

E então o mundo nos deu...: George Lucas.

Cena de combate espacial - Star Wars
Em ‘77 Star Wars estreia nos cinemas nos trazendo emocionantes cenas de combates espaciais. Cruzadores estelares, transporte de tropas, cargueiros e caças de combate cruzavam as telas com os ruídos de seus motores fazendo as cadeiras vibrarem, nos cinemas com melhor qualidade sonora. Os tiros disparados por canhões lasers tinham cor, luz e som. Os seus alvos explodiam e lançavam ruídos, destroços e chamas em todas as direções enquanto eram atravessados pelos pilotos, ases indomáveis, que surgiam do outro lado do fogo, gritando e acenando para o seu colega no caça ao lado.

Salve George Lucas.

Dogfight á là top gun
Claro que tudo o que estamos vendo não seria realizável nem dentro da atmosfera de qualquer planeta. Estas lutas, ao estilo Top Gun (1986), não existe nem mesmo em combates aéreos... Quanto mais num ‘pega’ espacial.

Num combate aéreo real, o piloto que persegue a cauda de um inimigo tem muito cuidado ao disparar, já que qualquer destroço do avião à frente pode causar a queda do seu. Um piloto de combate dispara e sai imediatamente da traseira do outro. Atravessar chamas de um avião destruído... nem pensar nego.

O senso de realidade é suplantado
Mas o nosso amigo, Mr. Lucas, nos fez acreditar que isso era possível. Sobrecarregando nossos órgãos sensoriais com tanta luz e som, tanta ação ocorrendo, tanta adrenalina envolvida que não nos damos ao luxo de tentar imaginar se algo do que estamos vendo é realizável. Isso de certa forma foi uma bênção. A diversão estava de volta e a ficção científica voltou a ter lugar nas produções de grandes investimentos.

Dá-lhe MithBusters
Isso, contudo, para o grande público, foi uma escola de física podre. A morte da mecânica newtoniana. A mutilação da relatividade de Eistein. A geração de um filho bastardo para a física quântica. Então tem muita gente boa, por aí, que acredita que, no espaço, uma nave pode navegar tão fácil e ágil quanto um avião de acrobacias aéreas. Que, se você quiser dar uma acelerada e um cavalo de pau em pleno cinturão de asteróides, poderá quebrar mais um recorde de travessia Terra-Marte.

Modelo de transferência orbital
De fato, naves espaciais navegam dentro de regras muito pouco flexíveis. Em verdade, qualquer foguete ou sonda espacial age e se desloca como se fosse um asteróide que pudesse acelerar ou frear. Estes aparelhos percorrem órbitas em torno de outros corpos cósmicos. Pode ser um satélite, um planeta ou o próprio Sol. Suas mudanças de velocidades bem calculadas possibilita que saltem de uma órbita para outra. Um foguete que sai da Terra em direção à Lua, está percorrendo órbitas elípticas em torno do nosso planeta, ou da Lua. Ou seja, um combate espacial seria algo muito chato. Você atira enquanto sua órbita está cruzando ou tangenciando a órbita da nave inimiga. A próxima salva de tiro só ocorrerá na medida que outra aproximação de órbitas ocorrer.

Outra possibilidade seria a constante alteração de órbitas, o que, para tal, seria necessário um enorme tanque de combustível. Imaginem que essa tanajura espacial, repleta de ‘nitroglicerina’, seria um belo alvo para qualquer atacante.

Para piorar: tudo, cada tiro, cada nave passante, alvos atingidos e explosões, seria de um silêncio sepulcral. Vejam a cena: um ônibus espacial silenciosamente passa, enquanto suas portas do vão central se abrem, sem fazer um ruído. Armas aparecem suavemente, sem barulhos. Mísseis disparam em direção ao inimigo, nenhum som. Luzes aparecem a uma distância absurda, você sequer imaginou que haveria outra nave naquele local. Isso indica que o alvo foi atingido. Não há chamas ou bolas de fogo. Tudo foi um flash muito breve e insignificante. Após algumas horas deveremos ver algum destroço flutuando. Essa é a descrição do que seria um combate em pleno espaço.

Lembrem-se: sem atmosfera, o som não se propaga e as chamas não existem sem o oxigênio.

Santificado seja o Vosso Nome
Hosana nas alturas São George Lucas. Dane-se a física e viva a diversão.

Outro ponto a ser mencionado é que naves espaciais viajam a velocidades de vinte a trinta mil quilômetros por hora nas proximidades do nosso mundo. Se alguma nave pudesse fazer qualquer tipo de pirueta a essa velocidade, e continuar inteira, teríamos que remover o piloto das paredes de sua cabine com uma espátula. A inércia, a estas velocidades, simplesmente esmagaria o pobre diabo.

No próximo artigo falaremos sobre o tradutor universal e suas ramificações...

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Titã - a grande lua do Sistema Solar

por Fabok

Astronautas chineses
A exploração espacial se encontra em uma encruzilhada. Fazer ciência no espaço se tornou algo absurdamente caro nas últimas décadas. Hoje as únicas nações quem possuem a tecnologia de enviar o homem à órbita terrestre são a Rússia e China. Os EUA, desde que aposentaram os ônibus espaciais, não têm nem uma data para voltar a ter um programa tripulado.

Estação Espacial Internacional
Embora a ISS esteja no espaço e os chineses estejam começando a construir a sua própria estação espacial, os resultados das pesquisas desenvolvidas, mesmo que importantes, não trazem aos governos retorno financeiro suficiente para justificar os pesados investimentos necessários para desenvolver novas tecnologias para viagens espaciais. Hoje, nossa própria Lua nos parece mais distante que nos anos do projeto Apollo. Se fossem descobertos minerais preciosos ou coisa similar, com certeza teríamos colônias inteiras por lá.

Sonda Phoenix - Marte 2008
Nem mesmo uma missão tripulada a Marte parece despertar o interesse. Com certeza seria um dos maiores feitos da humanidade, mas no final tudo indica que o planeta vermelho seja um mundo estéril, sem vida, pobre em recursos minerais necessários para nosso modo de vida, e lá os astronautas ainda estariam sujeitos a uma intensa radiação solar, devido a sua fina atmosfera e um inexistente campo magnético. A verdade é que os bilhões investidos não trariam o retorno financeiro à altura.

Saturno
Qual seria o local, no Sistema Solar, que nos traria um retorno financeiro até maior que o gigantesco salto tecnológico que teríamos que dar para alcançá-lo? Uma opção seria Titã, em órbita de Saturno, o segundo maior satélite natural do nosso sistema. Do tamanho de Mercúrio, Titã foi visitado recentemente pela sonda Cassini-Huygens e deixou os cientistas extasiados.

O satélite possui uma topografia muito semelhante à da Terra. Sua superfície é composta de rochas e gelo. Além disso, até agora é o único corpo celeste conhecido por nós que, além da Terra, possui líquidos em sua superfície. Titã possui lagos e até oceanos de hidrocarbonetos, neste caso metano, em sua superfície. Sua atmosfera é muito semelhante ao que supostamente seria a da primitiva Terra, com uma diferença. Titã não possui vapor d'água, mas mesmo assim talvez haja formas de vida microscópicas por lá. Mas o mais importante é que sua atmosfera, composta de nitrogênio e hidrocarbonetos, é densa, cerca de 60% a mais que por aqui, o que permitiria a astronautas caminharem pelo planeta sem os pesados trajes pressurizados, apenas roupas com equipamento para respiração e proteção contra o frio extremo de -178 graus centígrados. Outra vantagem é que esta espessa atmosfera protegeria contra os efeitos da radiação solar.
Titã em três comprimentos de onda - fotografada pela sonda Cassini
A composição da superfície e da atmosfera do satélite poderiam ser utilizados para a produção de oxigênio, água e até mesmo fertilizantes, dando condições para a criação de uma colônia auto-sustentável, já que nosso planeta estaria muito distante.

Cientificamente falando, Titã é mais atraente que Marte, além disso, economicamente, com sua fonte abundante de hidrocarbonetos, muito maiores que nossas reservas de petróleo, a lua de Saturno poderia, em tese, resolver nossos problemas de energia por décadas ou até séculos, nos dando tempo de desenvolver tecnologias mais viáveis para produção de energia limpa.

Transporte de combustível para a Terra ou posto de abastecimento?
O problema é a distância. Com nossa tecnologia atual a sonda Cassini-Huygens demorou sete anos para chegar lá. Estamos muito longe de termos uma missão tripulada tão longa nas profundezas do sistema solar. Os astronautas de Titã embarcariam numa jornada de décadas e muito provavelmente não retornariam à Terra. Quem seriam estes homens e mulheres e como eles reagiriam a tamanho isolamento? Outro problema, além de ser um local incrivelmente diferente do nosso, é a baixa gravidade do satélite, 0,14 da Terra, que traria riscos graves à saúde se não for trabalhada corretamente.

Clique para ampliar
Ainda assim, caso um dia tenhamos tecnologia para tal empreitada, estaríamos vivendo uma situação muito parecida à época das grandes navegações do século XV e XVI. Muitos daqueles exploradores jamais retornaram à sua terra natal. Eles partiram em busca de riquezas, mas acabaram por encontrar um novo lar e hoje somos a prova de seu legado.

Outland (1981) - brincadeira com o original
Os titãnautas, em seu sacrifício de deixar seu mundo natal para trás, estariam contribuindo não apenas com riquezas ou até mesmo a sobrevivência de nosso planeta. Eles estariam dando um passo importante para que os seres humanos colonizem o espaço e um dia, num futuro distante, alcancem outras estrelas.