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segunda-feira, 11 de junho de 2012

E a mecânica quântica nos trás um motor estelar

SÉRIE: CIÊNCIA

por Fargon Jinn

Exploradores, vamos falar de viagens interestelares? Ótimo!

A primeira etapa que teríamos que discutir são os meios ou os processos para tal. Como seriam?

Quero trabalhar com vocês alguns conceitos básicos, antes, para colocá-los no clima do que vou dizer em seguida, que é o real tema deste artigo.

Elaborando as motivações

Imaginem que tenhamos descoberto um planeta, em outro sistema estelar, em condições de existência de água em estado líquido, digamos, a oitenta anos-luz do Sol. Ou seja, já vemos aí a possibilidade de desenvolvermos um entreposto espacial. Muito dificilmente esse planeta nos daria possibilidades de viver nele. Muito quente, ou muito frio, atmosfera com concentrações gasosas indevidas, condições gerais hostis, risco de contaminação por doenças desconhecidas, etc.

Então por que o visitaríamos? Primeiro em busca de conhecimento. Desenvolvimento geológico, estudo da fauna e flora, mineralogia, gravitação, energia, química, fósseis, busca por inteligência extraterrestre, enfim, uma infinidade de questões de mérito científico. Além, é claro, de outras questões de méritos estratégicos. Por exemplo, para viajarmos entre as estrelas, é obrigatório um item de extrema necessidade: água.

É claro, poderemos levar tudo o que for necessário, inclusive água, mas esse é um elemento que sempre será necessário, inclusive para o nosso planeta. Por mais que se recicle, as perdas estarão presentes em qualquer situação. Além disso, se pretendemos criar uma base permanente neste novo sistema planetário, teremos que pensar em procriação. Para aumentar o número de indivíduos num sistema equilibrado teremos que, principalmente, aumentar a quantidade de água deste sistema, além de muitas outras coisas, obviamente. Um planeta com condições próximas ao nosso, ofereceria os insumos necessários.

Como se viaja entre os vazios estelares?

Desta forma já estabelecemos, até agora, as nossas motivações, “o porquê” de se viajar. Vamos então tratar do “como”.

Precisamos, com certeza, de um veículo espacial que nos permita viajar por séculos, e que mantenha as condições de existência de uma comunidade ativa. Nada de animação suspensa (criogenia, congelamento). Isso é mais fantasia do que uma possibilidade real. Essa comunidade manteria os sistemas do veículo, estudaria o espaço interestelar, trocaria experiências com a Terra e evoluiria em conjunto conosco.

Num sistema “congelado” não haveria desenvolvimento. Ao término desta viagem, teríamos uma pequena sociedade arcaica, destoante do resto da humanidade. Eles pararam no tempo por séculos. Nós evoluímos vertiginosamente. Seria como pedir a Napoleão que se adaptasse ao século XXI.

Propulsão e energia

Bom, continuando em relação ao “como”. O que propulsionaria nossa espaçonave durante esse período, quais combustíveis seriam necessários? Agora sim, chegamos ao verdadeiro motivo deste artigo.

Eu sempre acreditei, amigos exploradores, que, no futuro, os sistemas de propulsão teriam que depender de geração de energia nuclear (por decaimento ou fusão), e não poderíamos escapar disso e todas as suas implicações. Mas, recentemente, e isso é a grande novidade, a ciência deu um novo passo. Aisha Mustafa, uma adolescente egípcia de dezenove anos, estudante de física aplicada na cidade do Cairo, registrou a patente de uma nova e promissora solução para um sistema de propulsão espacial.

Mecânica quântica na parada

Aisha Mustafa, 19 anos, estudante de física aplicada
De fato, ela desenvolveu uma ideia de um “motor quântico” para vir a ser utilizado por naves espaciais de espaço profundo. O seu conceito é um equipamento capaz de gerar movimento a partir de coisa nenhuma. Parece louco, mas não é.

A partir da teoria desenvolvida pelos físicos holandeses Hendrik Casimir e Dirk Polder, mais conhecida como Efeito Casimir, ou Força Casimir-Polder, ela fez um desenvolvimento de um método que aproveitaria o chamado Differential Sail (velejar por diferencial, numa tradução livre), que é uma das várias propostas desenvolvidas pelo físico estadunidense Marc G. Millis, para a NASA.

Surfando no espaço?!

Infográfico exemplificando a Força Casimir-Polder
O Efeito Casimir é um fenômeno que funciona perfeitamente no vácuo. Duas placas colocadas paralelamente à distância de alguns micra, uma da outra, tendem a aproximarem-se. Para simplificar, entre as placas existe uma ondulação energética menor do que nas laterais externas. Esta diferença de ondulação recebe força de fora para o interior das placas, aproximando-as.

O Differencial Sail seria um processo em que produziria-se uma densidade energética menor num dos lados do sistema gerando um movimento do lado mais denso para o menos denso. Exatamente como se fosse uma vela, onde a pressão dos ventos empurra a embarcação.

Ou estaremos velejando...?

O NanoSail-D da NASA é um veleiro solar bem sucedido
Velejar no espaço não é uma ideia nova. As estrelas produzem o chamado vento solar. Este é o resultado da radiação e emissão de matéria das estrelas para o espaço.

Já no espaço interestelar isso não seria tão fácil, longe das estrelas a nave não teria tanta força para ser impulsionada. Nestas regiões entra-se no conceito quântico de Energia de Ponto Zero, ou seja, a menor energia possível em qualquer circunstância é meio quantum. Essa energia é a que gera o Efeito Casimir.

O conceito de Aisha Mustafa aproveita esta pequena energia e a transforma em movimento. Ou seja, não precisaremos de tanques de combustíveis para reatores químicos ou propulsores iônicos que demandam uso de energia elétrica.

Não é uma Brastemp

Alguns chegam a ir longe em suas suposições
Eu sei, exploradores, eu sei: Não é uma Enterprise...! Né? Mas ainda assim é o que a nossa realidade científica pode prover. Isso com certeza é o início de propostas para sistemas muito mais eficientes e velozes num futuro bem próximo.

Mais imediatamente, poderemos ter sondas de espaço profundo usufruindo de um sistema de propulsão quântica que poderão funcionar por séculos, orientadas para os sistemas mais próximos como Alfa-Centauri e outros nas vizinhanças.

Isso, no mínimo, é uma grande barreira sendo superada pela física moderna e por uma cientista tão jovem, e ainda em formação. Imaginem o que poderemos ter dentro de alguns anos... Quem viver verá!

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Star Wars - jubileu de coral (parte III)

SÉRIE: AS GRANDES SAGAS

por Fargon Jinn

Quando Star Wars foi idealizado, tinha-se em mente algo puramente recreativo. George Lucas pensava mais em termos televisivos do que propriamente cinematográficos. Sua intenção era exibir algo que fizesse as pessoas rirem e vibrarem com histórias infantis, sem cunhos mais sérios, mas dentro das salas de cinema. Este era um ambiente familiar para ele, e era para aquele público que ele escrevia um argumento gigantesco.

Abertura de Buck Rogers - inspiração e homenagem
Dentro da perspectiva de se recriar seriados para o cinema, suas propostas de roteiros eram relativamente curtas e só faziam sentido dentro de um contexto de dez a vinte episódios de longametragens de setenta a oitenta minutos.

O germinar de um novo universo

As idéias eram mirabolantes demais para a época
Mas quanto mais Lucas falava sobre suas ideias a produtores e cineastas, mais desacreditado ficava. Ninguém parecia entender suas intenções e seu sentimentalismo anacrônico. Isto, por fim, começou a influenciar o próprio autor que, apaixonado por seu épico, resolve tentar adaptá-lo às exigências de produção da época.

Assim Star Wars começa a ser delineado como uma trilogia. O argumento de vinte episódios que descreveria os possíveis pais da personagem central, Darth Vader, até o legado deixado para seus netos, foi centralizado em sua vida. Ficando com nove episódios.

Durante um longo período George Lucas afinou esta proposta, contou com a ajuda de muitos amigos do período de faculdade e Joseph Campbell, mitologista que lhe ajudou a encontrar a verdadeira alma de seus personagens.

O universo desponta

Mas roteiro mesmo até então não existia. Eram páginas e páginas de anotações com ideias para as personagens e suas jornadas heroicas. O primeiro roteiro afinal veio após uma conversa com Alan Ladd Jr, diretor da Fox, durante uma viagem em que eles se encontram e Lucas fala de suas ideias. Já com algumas recusas acumuladas foi surpreendido pelo entusiasmo de Alan, que aparentemente havia entendido seus conceitos.

George rapidamente apresentou um roteiro empolgante e ousado, que exigiria um grande investimento financeiro. A Fox interessou-se mas exigiu inúmeras modificações e redução de custo.

Cena inspirada em Dersu Uzala (1975) de Akira Kurosawa
Inicialmente deveríamos ter num formato de seriado de cinema. Um episódio que mostraria a vida de um jovem fazendeiro ansioso por aventuras. Este acaba juntando-se à resistência contra o Império que subjugou seu planeta, outrora independente. E obtém, ao final, uma importante vitória contra os opressores.

Em toda a sua trajetória um mentor o guiaria. Toda uma filosofia teria que ser aprendida e esta lhe daria o poder necessário para superar suas deficiências e sobrepujar o inimigo. Por fim descobriria que seu pai era um importante general do Império, e que este também era seguidor dos mesmos ensinamentos, mas com uma visão corrompida.

E... floresce!

Nas histórias posteriores, se viessem a existir, deveriam mostrar a redenção de seu pai e a destruição do Império.

Neste trajeto o mentor iria acompanhar o jovem herói em sua jornada até o momento de seu sucesso final, com a queda do Império. Alguns amigos de batalhas seriam perdidos, entre eles aquele que se tornou Hans Solo. A princesa Leia não existiria como sua irmã, mas como a donzela a ser salva do pai maligno. Os robôs foram incluídos para suavizar a narrativa e atrair o público infantil, inspirados no filme Corrida Silenciosa (1972), e sua participação reprisaria a dos narradores do filme The Hidden Fortress (1958), de Akira Kurosawa, de quem Lucas, como grande admirador, ainda emprestaria mais, pelo menos, uma dúzia de elementos.

Plageia...

The Hidden Fortress - inspiração para o episódio V
Isto não minimiza o valor de Star Wars, visto que o próprio Akira produzia seus filmes a partir de obras de autores estadunidenses. O mundo do cinema é um tremendo rouba-copia que nunca acaba. Yojimbo (Akira Kurosawa - 1961) foi a versão do japonês para o livro de Dashiell Hammett (Colheita Vermelha – 1928), cujo personagem é um detetive sem nome. Sergio Leone, diretor italiano de filmes faroestes, colocou em seu filme, “Por Um Punhado de Dólares” (1964), Clint Eastwood no papel do “Homem Sem Nome” (chamado Joe), baseando-se em Yojimbo. Já o filme “Sete Homens e Um Destino” (1960) de John Sturges, é a versão americana de “Os Sete Samurais” (1954) de Kurosawa. Clint Eastwood foi a inspiração para Boba Fett, em Império Contra-Ataca, na versão espacial do “Homem Sem Nome”. “Vida de Inseto” (Pixar – 1998) é uma versão animada de “Os Sete Samurais”.

Para falarmos da coleção de influências, inspirações e plágios utilizados em Star Wars, precisamos de outro artigo. Ou outros artigos, já que as ramificações vão longe.

Frutifica e amadurece

Ben Yoda ou Yoda Kenobi? Até Lucas os confunde...
Mas voltando ao tema, Yoda é forçado a surgir posteriormente para sanar a falta de Obi-Wan, que Lucas, num arrojo de dramaticidade, resolve matar prematuramente.

A Estrela da Morte, baseada no planeta Mongo, de Ming o Impiedoso, imperador maligno e arquiinimigo de Flash Gordon, só deveria surgir no terceiro filme. Que iria se chamar A Vingança do Jedi, e não O Retorno... Como poderia não haver terceiro filme, Lucas usou a ideia no episódio IV, e teve que criar uma estação de terror maior do que a primeira, para o episódio VI.
Príncipe Thun dos Homens-Leões é base para Chewbacca

Hans Solo e sua Millennium Falcon, bem como Chewbacca (inspirado no Príncipe Thun, o homem-leão de Flash Gordon) acabaram sobrevivendo em resposta à extrema popularidade que alcançaram. Quase que Boba Fett também escapa da morte, na segunda versão de O Retorno do Jedi, por causa da alta popularidade do bountyhunter, e da morte hilária que sofre. Felizmente George Lucas não cometeu esse sacrilégio.

E assim são trinta e cinco anos

Amigos exploradores, os assuntos de Star Wars não se esgotam aqui. Como uma de nossas queridas grandes sagas, estamos sempre revisitando o tema, e ideias não faltam. Se quiserem sugerir sintam-se à vontade. Teremos prazer em atender. Até breve.

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sexta-feira, 25 de maio de 2012

Construíndo a Enterprise

SÉRIE: CRÔNICAS NERDS

por Fargon Jinn

Olá amigos exploradores. Sendo esta semana um período do ano muito especial, estou trazendo este presente ou esta pérola, dependendo dos olhos de quem vê. O que temos nas linhas a seguir é algo com o qual esbarrei nas minhas atividades exploratórias da internet. Algo que além de me encher de espanto e incredulidade, também me trouxe um pouco daquele entusiasmo infantil e inconsequente. Me fez pensar e sentir como NERD, como alguém que sonha desmedida e irresponsavelmente. E, de repente, resolve que se ninguém começar a fazer em algum ponto, ninguém nunca o fará. Então, por que não ser eu o primeiro lunático a agir? E começo a dar asas à imaginação. Sigo aquilo que alguém disse: “Toda obra prima é um por cento de inspiração e noventa e nove de transpiração!”.

Comparação entre construções e navios com a Enterprise
Então, eis que um misterioso nerd, Dan (apenas Dan), com uma idade que deve estar na casa dos cinquenta, engenheiro elétrico e de sistema, que trabalha, há trinta anos, numa poderosa empresa que explora tecnologia de ponta, senta-se na frente de seu computador e do nada cria um site que vem recebendo dezenas de milhares de visitas diariamente. buildtheenterprise.org, é sem dúvida a coisa mais impressionante que já encontrei nos últimos anos.

Um sonho, um delírio e muito trabalho

Enterprise de Star Trek (2009)
Ele acredita que poderemos construir uma Enterprise em vinte anos. Mas não uma nave qualquer. A Enterprise. Aquela, capitaneada por ninguém menos do que James Tiberius Kirk. A NCC 1701-x, Gen1. Estamos falando aqui de uma realidade? Ou é um sonho? Seria um delírio? Nenhum, nem outro. É uma proposta para o mundo. Um desafio ao estilo J. F. Kennedy.

Orçamento para vinte anos
Trata-se aqui de uma réplica estrutural na escala 1:1 da nave estelar que deveria ser construída em 2245, cujo custo é orçado em um trilhão de dólares americanos. Equivalente a cinquenta bilhões/ano. Ou seja, como se lançássemos uma centena de missões do ônibus espacial por ano, pelos próximos vinte anos.

A proposta toda está pronta. Ele gerou tudo, desde os custos de produção; organogramas; cronogramas; plantas; soluções de engenharia; métodos de construção; desenvolvimento de tecnologias; usos; missões; evolução do projeto; e, todo o programa espacial para os próximos cem anos, pelo menos. É trabalho de gente grande com imaginação de gente miúda, prolixo, proativo, fértil e desmedido.

A culpa é de Newton

A coisa toda é extremamente fantasiosa. Algumas das soluções são baseadas em conhecimentos teóricos, mas quando se faz uma projeção realista sua aplicação não ‘bate’. Por exemplo, em Star Trek, existe um gerador de gravidade. A nave de Dan tem a roda ou carrossel gravitacional, concebida para suprir a tecnologia de gravidade artificial. Este seria um cilindro giratório do tamanho da seção disco (parte dianteira da Enterprise) que produziria o equivalente a uma gravidade terrestre.


A falha desta proposta está nas três Leis de Newton. Ao iniciar-se um sistema rotatório no interior de uma espaçonave, a força aplicada ao cilindro será repartida com o restante do sistema. O cilindro gira para um lado e o restante da nave para o outro. Teríamos que compensar com jatos de manobra.

A cada vez que a Enterprise parte para uma viagem ou chega ao seu destino, o cilindro deve parar, para que se fixe todo o sistema estrutural nas alterações inerciais e, já no novo estado inercial, retomar sua rotação. Reiniciar o giro durante deslocamento, mesmo já atingida sua velocidade de cruzeiro é outra dificuldade, pois há uma séria implicação na estabilidade do sistema.

Troco três reatores nucleares por um de anti-matéria

Propulsor iônico com tanque no Electric Propulsion Laboratory em Ohio
Enquanto que no século XXIII a nossa nave teria propulsão de dobra espacial e energia de reatores matéria-antimatéria, esta seria com motores iônicos e reatores nucleares. A de Kirk viajaria entre as estrelas, a de Dan, entre os planetas e satélites do Sistema Solar.

São inúmeras diferenças, e não poderia ser de outra forma. Mas o que mais chama à atenção é a seriedade com que são levadas as propostas. São páginas e páginas esclarecendo detalhes de construção, produção, utilização e correlação a outras soluções de usufruto do espaço. Desde posto de reabastecimento para a “frota” terrestre, reparo e lançamento de satélites, limpeza de detritos orbitais, passando por laboratório espacial e centro turístico, até ferramenta de instalação de bases lunares, planetárias e cidades nas nuvens (estilo Star Wars).

Lasers no papel de Phasers
Não estou brincando. Ele planeja instalar um laser de cem megaWatts na seção frontal do disco com o fim de desintegrar o lixo espacial, fazendo as honras dos canhões phasers. O que nós poderíamos usar para substituir os torpedos fotônicos?

É prá falar a sério...?!

E os internautas estão levando à sério. O site já sofreu crash mais de uma vez por acesso excessivo.

Olha! É uma delícia. Explorei o site como se estivesse num dos muitos jogos de Star Trek. É uma experiência de realidade virtual. Você se perde no entusiasmo da imaginação. Me senti criança, novamente, assistindo a Kirk e sua tripulação, nas noites de sexta-feira, numa TV preto e branco.

Quem sabe?! Vai que realmente a massa-crítica é atingida e, num efeito turba, o projeto começa a deslanchar. Talvez não seja em vinte anos, talvez seja em sessenta, talvez mais. O importante é que tem um maluco lá fora. E ele não sabe se conter. Com a cabeça nas nuvens e os pés ainda mais altos, ele desistiu de encontrar motivos-para-não-fazer. Resolveu que os-motivos-para-fazer são melhores, e abriu a torneirinha. Essa, nem o Visconde de Sabugosa fecha. Aahh! Essa é para nerds! E... o que nerds querem... Huummm...!!!

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Star Wars - jubileu de coral (parte II)

FAZENDO A HISTÓRIA

por Fargon Jinn

George Lucas criou Star Wars como um revival dos antigos seriados de cinema. Já dissemos no artigo anterior. Mas como foi isso em detalhes, é o que trazemos aqui.

Grande fã dos antigos filmes e diretores, Lucas sempre buscou inspiração na história do cinema. “Uma ideia que já foi feita, pode ser reciclada, filtrada e dissecada. A partir da essência obtida podemos gerar novas propostas.” Dizia um de seus professores, na Universidade Sulista da Califórnia.

Star Wars é resultado de um estudo mitológico

Biggs Darklighter e Luke Skywalker
Durante um ano ele preparou um argumento para um seriado de cinema. Seria uma space opera, que contaria uma saga heróica, um épico. Os seus personagens variavam em número, motivações, trajetórias, arquétipos, etc, a cada nova versão que escrevia. Mas, mesmo com muitas variantes, não chegava a satisfazer-se com nada.

Um dia leu uns trabalhos de um estudioso, Joseph Campbell, um mitologista. George Lucas procurou Campbell, levando suas anotações, argumentos e construção de personagens, buscando uma orientação de arquétipos e figuras mitológicas que pudesse acrescentar em seus personagens e sua narrativa.

O roteiro se estrutura

Livro de 1949
Campbell, entusiasmando-se com o que viu, começou a fazer sugestões e correções a este jovem roteirista, que tudo anotava, acresentando linhas de trajetórias, e reescrevendo rapidamente seu argumento.

Ambos trabalharam animadamente por vários meses até que, satisfeito, George Lucas resolve levar o seu semipronto roteiro para alguns estúdios. Em vários nem foi recebido, em outros ganhou um sonoro não. Decepcionado, por um lado, e estranhamente satisfeito por outro, resolveu que ia mudar a sua proposta. Não queria mais um seriado. Mas ia construir um enredo a partir de um de seus capítulos.

Escolheu o que viria a ser o número quatro. Achava que seria interessante levar um filme ao cinema que apresentava-se, sem mais nenhum esclarecimento, como o quarto de uma série. Queria ver o que as plateias diriam, se procurariam pelos anteriores, ou se aceitariam sem questionar.

Roteiro pronto, preciso de dinheiro

Nesta fase Luke Starkiller ainda seria uma garota
Procurou então a Universal e a Paramount, onde também foi recusado. Desta vez, contudo, houveram discussões, olharam com uma análise mais acurada e até quiseram que ele revisse vários aspectos. Percebendo, então, que estava no caminho certo, levou seu roteiro a Alan Ladd Jr. que, após uma conversa breve, sentiu que ali poderia haver algo promissor.

Ambos apresentaram a proposta aos diretores da Fox. Alan acreditava que Star Wars pudesse ser um sucesso semelhante ao Planeta dos Macacos (1968), orçando a execução em US$15 milhões. O Estúdio, no entanto, não queria arriscar mais do que US$10 milhões. Lucas então reprogramou todo o seu orçamento e apresentou uma nova proposta de US$9,9 milhões. Juntamente, propôs uma minuta de contrato, dizendo que o merchandising, participação na bilheteria, a marca e o direito às continuações, ficariam para ele em troca do cachê de diretor, escritor e roteirista. A Fox deu sinal verde, e a produção teve início.

A infraestrutura de um sucesso

Joe Johnston inspirou-se num hamburger mordido e uma
azeitona recheada ao lado para fazer a Millennium Falcon
Durante o período de um ano, George Lucas escreveu e reescreveu seu roteiro, seus personagens evoluíram e amadureceram. Artistas foram chamados para apresentar desenhos de produção de cenários e personagens. Ralph McQuarrie e Joe Johnston foram escolhidos para dar vida a este novo universo, com suas visões arrojadas e não convencionais.

Vista Cruiser, um dos primeiros controladores de movimento de câmera
Outros também foram chamados, em sua maioria estudantes, que ofereceram uma saída mais viável para a movimentação de câmera. Em contrapartida ao padrão normal, onde a maquete era movida em frente da câmera, neste, computadores seriam utilizados para controlar a movimentação de câmera durante as tomadas de ação. Algo que no fim seria revolucionário para o processo. Mas isto viria a ter um preço para Lucas. Os constantes defeitos que o novo sistema sofria, iriam provocar a interferência do Estúdio que insistiria para que fosse adotado o sistema convencional.

George Lucas fincou pé em todas as suas exigências e levou o trabalho adiante. Estas e outras questões quase levaram o filme a ser cancelado em vários momentos. De um lado os executivos da Fox tinham seus interesses, seus amigos e suas liberações de verba. Do outro estava Alan Ladd Jr. que, isolado, apoiava um jovem diretor que queria fazer um filme autoral dentro de um estúdio pertencente à "indústria do cinema". Este, também, viria a pagar por sua insolência.

Compartilhando a inspiração

Dogfights inspirados em cenas do filme Labaredas do Inferno (1966)
Por fim, equipe montada, Lucas reuniu todos e mostrou tudo aquilo que o tinha inspirado para Star Wars. Queria que os responsáveis pelos trabalhos futuros vissem aquilo que ele tinha em mente. Foram inúmeras mostras, desde Akira Kurosawa com seus Sete Samurais (1954), A Fortaleza Oculta (1958) e Yojimbo (1961), Beowulf, as lendas do Rei Arthur, a série Flash Gordon (1930), “O Herói de Mil Faces” de Joseph Campbell, Labaredas do Inferno (1966), Duna de Frank Herbert, O Mágico de Oz (1939), 2001: Uma Odisséia no Espaço (1969) e Metropolis (1927), entre muitas outras referências.

Com teimosia e tudo, George Lucas teve que, ainda assim, fazer inúmeras concessões aos executivos da Fox. A mais famosa foi a retirada do “Capítulo 4” da abertura, inspirada nos letreiros de Flash Gordon e Buck Rogers. Esta, posteriomente foi recolocada. Méritos do sucesso. Ao verem os resultados na bilheteria a Fox imediatamente fechou contrato de distribuição das sequencias, permitindo qualquer alteração no filme já realizado.

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Continua na parte III, quando mostramos alguns dos muitos problemas de produção e mudanças do roteiro com mais detalhes.




segunda-feira, 14 de maio de 2012

Star Wars - Jubileu de Coral (parte I)

FAZENDO A HISTÓRIA

por Fargon Jinn

Em 25 de maio de 1977, George Lucas estreava, em salas de cinema dos Estados Unidos, o terceiro filme de sua carreira, Star Wars. Uma obra completamente autoral, com orçamento mediano e dentro de um gênero infame, a ficção científica. Os filmes pertencentes a esta classificação, com poucas exceções, eram considerados filmes 'B', ou de baixo orçamento.

Nem Lucas imaginava a onda de sucesso que este primeiro filme iria inaugurar.

De Lumierè e Méliès

Até então, a FC no cinema tinha obtido seu relativo sucesso. Os irmãos Lumière quando começaram a divulgar o cinematógrafo, em 1895, utilizaram cenas do cotidiano que seriam interessantes, chocantes ou hilárias. Mas eram apenas momentos, não contavam histórias. Foi Méliès quem percebeu o seu potencial ao levar histórias completas para a telona, e lançou o primeiro filme de ficção científica do cinema mudo, Da Terra à Lua, em 1902, da obra de Jules Verne. Desde então este gênero arrebatou a imaginação de jovens e adultos por décadas.

Na década de 50, com o medo da guerra fria, o cinema foi buscar na pulp fiction, inspiração para produzir obras que fossem de encontro com o momento e os anseios do publico.

Ficção científica foi trash durante vinte anos

Rebelião dos Planetas - 1958
Substituindo os filmes de terror da década de 40, o cinema produziu inúmeras obras que exigiam o desenvolvimento de tecnologias e narrativas próprias, e sempre a baixos custos. Enquanto o grande público valorizava, com mais força, comédias, musicais, dramas e épicos, os filmes de FC, abriram espaço para os seriados de fantasia, como Flash Gordon e Buck Rogers. A cada semana, o mercado infanto-juvenil era saudado com um novo episódio de aventura espacial ou combates alienígenas.

Obraprima de Kubrick - 1969
Na década seguinte, com a conquista do espaço tornado-se uma realidade, surgiram filmes com propostas mais sérias, orçamentos melhores e um público mais diversificado. Tivemos, neste período, Planeta dos Macacos (1968) e 2001 - Uma Odisséia no Espaço (1969).

Nos anos 70, este gênero, embora querido do público, desvalorizou-se, culpa de produções de baixíssimo orçamento e pessimamente conduzidas. Ficção científica havia se tornado o velório de atores e diretores que ainda tentavam se manter sob os holofotes da fama.

O momento da virada e seu visionário

Uma proposta para reviver os seriados de outra geração
Neste cenário, George Lucas surge com a idéia marota de retomar o mote dos antigos seriados de cinema. Desta vez, contudo, teríamos uma produção de longa metragem. Seriam mostrados novos elementos dramáticos, precisariam ser desenvolvidas novas tecnologias de efeitos especiais. Teríamos, assim, um drama épico de fantasia e ficção científica. Algo que poderia atrair aos cinemas toda gama de público, desde aqueles que buscavam as superproduções do passado, até aos que assistiam a todo tipo de filme de baixa categoria, desde crianças até os mais velhos amantes da sétima arte.

A Fox queria uma bilheteria mediana e pouco investimento
A Fox, relutantemente ofertou um orçamento de dez milhões de dólares, muito inferior aos filmes de grande interesse de público da época. Mas foram os únicos que quiseram arriscar. O Estúdio, há muito, vinha procurando algo que se assemelhasse ao retorno financeiro de Planeta dos Macacos.

O pulo do gato

George Lucas durante as filmagens de Star Wars
Lucas de forma visionária, declinou de seu cachê como diretor, escritor e roteirista, ficando com a renda futura das vendas de merchandising e participação de bilheteria. O pulo do gato.

Buscando reduzir ainda mais os custos de produção, para encaixar em seu orçamento, tão apertado. George Lucas começa a percorrer as universidades atrás de estudantes e outras pessoas que pudessem contribuir com soluções às suas necessidades de efeitos especias inovadores e realistas.

A jogada de mestre: nasce a ILM

A coisa funcionou tão bem, que, às pressas, ele cria uma nova empresa, a ILM (Industrial Light and Magic), sendo esta a responsável pela geração de todos os efeitos visuais e sonoros que viriam a ser apresentados em seu filme. Até então, FX era produzido por freelancers, não existia um mercado capacitado para manter em tempo integral profissionais com estas especializações. Geralmente os diretores, como mágicos ilusionistas, vinham com suas próprias soluções para os efeitos, ou contratava-se um consultor ou especialistas para cenas de explosões, tiroteios, lutas corporais, etc.

Espetacular cena de Mestre dos Mares - 2003
Com a estreia de Star Wars, o cinema mudou radicalmente. Em geral era muito difícil produzir efeitos convincentes. Os diretores preferiam deixar algo subentendido do que passar o vexame de ter cenas ridículas e por vezes hilárias em suas obras.

Surge um novo paradigma

Um livro para contar esta história de magia e sucesso
Mas a ILM mostrou que, com sua tecnologia e um orçamento razoável, os efeitos especiais tinham se transformado na pedra filosofal do cinema moderno. Agora, aquilo que só poderia existir na imaginação dos diretores, tornaria-se real e crível. Foi o novo boom do cinema, nenhum orçamento era grande demais para incluir-se FX da ILM, e o público respondia lindamente, com excelentes resultados de bilheteria.

Assim Star Wars surgiu no cenário mundial. Uma explosão com reação em cadeia. Mudou o cinema e mudou o público. Trouxe novos investidores e gerou toda uma nova linha de profissionais. Abriu novos horizontes com a venda de produtos, impulsionou o desenvolvimento do homevideo e de novas tecnologias cinematográficas.

A nova geração sabe o que significa Star Wars?

Eu quero um par de óculos desses....!!!
Hoje em dia, a garotada que vai ao cinema ver a estreia de Star Wars I - A Ameaça Fantasma em 3D, pensa que finalmente vai ver um destes filmes no cinema. É muito mais do que isso. Não sabem, mas estão prestigiando a um marco simbólico da arte. O Episódio I só foi possível graças à visão e ousadia de George Lucas, à fé de homens como Alan Ladd Jr, da Fox, e ao público de 1977 (dentre eles, este que aqui vos escreve). Público este que foi ao cinema desprovido de preconceitos, entendeu e acolheu tão bem esta obra de expressão artística.

Amigos exploradores, já temos publicado aqui alguns artigos sobre esta saga maravilhosa, e este é o primeiro de uma série de novos artigos que estarei levando a vocês pelas próximas semanas e meses. É um tributo a este universo, impalpável, mas profundamente real que existe dentro de nossas mentes e nossos corações. Um grande abraço a todos, parabéns a George Lucas, à Fox, e a todos nós neste nosso trigésimo quinto aniversário.

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Até a próxima...